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Ele já estava na festa com os amigos. Nervoso, impaciente, na incerteza sobre a veracidade da informação que lhe deram, nem reparou que ela chegou. Ela chegou com as amigas, naquele alvoroço típico de miúda mimada que gosta de dar nas vistas e encher a sala. Era disso que gostava quando a via. O desafio que ela provocava.
Não reparou e isso correu-lhe bem, marcou uns pontos.
Quando a timidez, já embriagada, adormeceu, foi-se meter com ela, provocá-la, jogar um bocado. Foi também causar burburinho, como ela também secretamente queria. Pareciam duas crianças com um brinquedo novo, um e o outro. E brincaram, brincaram demasiado com isso e nem deram conta, sabes aquela sensação platónica que tens quando conheces uma mulher pela primeira vez? Foi isso que lhes deu, e a ele não podia dar! Ele tinha namorada de anos.. Agora imagina as repercussões.
Mas a noite estava virada a sul e aquela festa transpirava significado.. e muito álcool, mas não vou apontar dedos.
Foi numa das saídas em debandada daquele sítio que ficaram para trás, a rir-se um do outro, como amigos 'porreiros' que se tornaram, e saíram por último. Daquela sala saía-se para umas escadas, mas tinha uma pequeno hall em que a luz estava desligada. Já sem barulho dos que se tinham ido embora, ainda meio a brincar ele pegou-lhe no braço e abraçou-a a olhá-la nos olhos. Ficou de dia para eles, tal era a tensão acumulada, viam-se na perfeição, um por dentro do outro e só pensavam no errado que aquilo era.
Temos que ser justos! Às vezes, nos momentos certos, as coisas têm que acontecer! Quando o momento está perfeito, quando parece que saímos de um filme, quando tudo à nossa volta se cala e só há um desfecho possível para tudo fazer sentido e para o regresso à realidade ser tolerável, não podemos hesitar.
E não hesitaram, olharam-se um longo tempo nos olhos, a jeito de sincronização, criaram o momento e beijaram-se. Tudo à volta começou à roda e o beijo tornou-se a única coisa.
Palmas dentro deles e a porta abre-se: afinal não saíram todos. Afastam-se e descem as escadas: nada aconteceu. Nada podia ter acontecido.. Na cabeça dele, que é a única que conheço, já se inventavam milhares de justificações, todas a chocar umas com as outras: está escuro, estou bêbado (ele também gosta de apontar dedos), é de noite; mas nada fazia sentido e ao mesmo tempo fazia tudo.
A partir daqui já não sei mais, não me contou mais. Mas olha que fiquei assustado, nunca o vi assim, tão apaixonado a contar uma história.