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Verão igual a calor, praia, pouca roupa, bikinis. Mas também é igual a incêndios, a "este ano ardeu menos que os outros anos", a acidentes com destino a Portugal, a carros com matrículas estranhas e condutores de bigode, a crianças afogadas em praias e piscinas e pescadores desaparecidos.
O Verão é a chamada silly season: não há notícias, não há agenda, não há ideias.
Deve ser por isso que os portugueses gostam tanto de fazer a mesma coisa todos os anos. As marcas de cerveja fazem anúncios de vidas irreais, com mulheres nuas e praias desertas. Os mais jovens divertem-se a agarrar o sol com as mãos num pôr-do-sol que caracterizam sempre como o melhor do mundo. Escrevem palavras de amor e afecto na areia às namoradas e elas, surpresas, brindam-nos com loucuras quentes cheias de areia. Nas revistas vêem-se as actrizes de 20 anos com as maminhas ao léu, com um ar chateado por serem fotografadas numa praia cheia de gente.
À noite, as jovens que antes rebolavam na areia com os seus pares, despem-se ainda mais para ir à discoteca. Bebem à pressa, para "bater mais rápido", tiram mil e uma fotografias e fazem concursos de quem estava mais ébria. As fotos em que ficaram com os olhos abertos ou ao pé de um rapaz giro cheio de cabelo, metem no Facebook num álbum sob o nome "Férias 2010" com a descrição que foi o melhor verão de sempre.
Os jovens, aqueles que andam de braço à mostra, cheios de ar nos pulmões e a fugir das agulhas, fazem esquemas de como engatar aquela miúda. Lutam todos entre eles e o primeiro a sangrar ou a levar com um cassetete perde e fica em casa nessa noite.
Os pais destes, enquanto escolhem a melhor foto para enviar para o "Melhor e o Pior do Verão" da SIC, de volta da comida estranha que está no fim dos palitos, embebedam-se com cerveja do Lidl e cantam nas varandas ou vão para as praias para serem dados como desaparecidos.
Não concordo com o título (silly) que dão a esta estação, é no Verão que nascem as histórias para o Inverno, tal como a Cigarra e a Formiga. É no Verão que acontecem as loucuras e os amores rápidos. No verão soltam-se os corpos e há mais sexo, desprotegido, que é o melhor. No Verão pode-se dizer tudo o que queremos, é como no Carnaval, ninguém leva a mal. "É Verão!" dirão os mais incautos. "Quero o Inverno!", os mais estudiosos.
Sim, o Verão não é um mar de diversão para todos. Os mais reservados ficam em casa, agarrados às roupas pretas com uma ventoinha privada. São esses os que fazem a economia avançar, que ainda compram jogos de computador e latas de Coca-Cola. As latas de Coca-Cola não se partem no chão numa noite menos sóbria.
Mas nem tudo no Verão é assim como eu vos explico. O Verão é tempo de espera, é tempo de pensar se vale a pena. As decisões mais importantes da minha vida tomei-as no Verão, com uma garrafa de cerveja a ver o sol fugir-me pelas mãos.
É esse tempo livre que o Verão nos dá, a ajuda do álcool, da droga, das loucuras, o estado 'zen' das directas, a azia do redbull, o dizer por parvoíce todas as manhãs 'viva la vida' e no fundo acreditar nisso, a loucura de abandonar a agenda por uma, duas semanas, o "sabes o caminho? não? vamos na mesma!", o fazer quilómetros e quilómetros só porque sim, o perguntar o que se passou na noite anterior, as fotos que acabam sempre à mesma hora e tantas outras coisas que só existem na 'silly season' que fazem dela a estação mais importante e mais activa de todas. Porque as decisões que vou tomando têm sido correctas, e espero que continuem a ser.
Vamos ao Outono?
Categoria: Opinião