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Hoje apeteceu-me ir aos meus cadernos, a minha inspiração está demasiado ferida com tudo o que se passa à minha volta e é impossível escrever sobre qualquer coisa com alguma parcialidade. Houve óptimas surpresas, bem antigas - aviso já.
(2006?)
Ele pediu-lhe eternas vezes.. tanta vez, lembrava-se, enquanto chorava - e esta foi a primeira vez que vos disse que ele chora, oh! se chora..
Naquele dia, tanto tempo depois, a memória voltou-lhe com todas aquelas perguntas que não deixam saudades, mas estamos sempre à espera que venham; todos os "e se's" que nos viciam, mesmo sabendo que nos destroem.
(2006?)
Pedro inspirava agora o máximo que conseguia, enchia os pulmões daquele ar húmido que nos queima as narinas e que nos refresca, mesmo estando um frio desconfortável. Chovia pouco, o suficiente para ter de tirar os óculos para conseguir ver. Não o incomodava! Oh não, aquilo era perfeito. Estava finalmente ali, em busca do sonho. Longe de tudo.
Sabia onde tinha de ir, já ali tinha estado, quando se apaixonou por aquela cidade: Lisboa sem o Marquês de Pombal, esse cínico primeiro-ministro que "endireitou a capital".
Mas ele agora estava noutra capital: a capital do condado Portucalense, a "Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta" cidade do Porto.
Sentia-se a melhor pessoa do mundo e tinha acabado de nascer. Podia mudar de nome, mentir na idade, podia ser quem quisesse: naquele momento o Pedro era o homem mais poderoso do mundo, a quem lhe tinham dado uma segunda oportunidade, com o bónus da sabedoria que os 23 anos tinham, o habituaram.
(Texto encomendado - 2007)
Vi-me num autêntico filme nestes dias, nunca pensei que uma simples roulotte teria tanto impacto nas massas.
Bem.. não é uma simples roulotte: chama-se Albertina e é do tempo da revolução!
Digo num filme porquê? Tudo começou no dia __, essa sexta-feira que tantos males agoirava. No entanto, foi como que um empurrãozinho simpático do género: "cai na real, pode não ser tão bom como pensas."
A minha Albertina tem essa propriedade, consegue comunicar comigo, comparava-a até aos meus 16 gatos, não tivesse eu a noção de que a Albertina não passa de uma roulotte inanimada que precisa de um "puxador".
Foi então com este sentimento agridoce que parti rumo à Zambujeira do Mar, uma pequena aldeia de quase 900 habitantes que temporariamente subiu para 30 mil assim que o maior festival do país se lhe tornou anexo.
No caminho senti-me importante, mais que quando me dizem que faço um bom trabalho! Na auto-estrada miúdos cheios de pressa de chegar, ignoravam os pais e diziam-me adeus e apontavam. "O que é aquilo? Que bichos giros!", percebia eu pelos seus lábios.
Na Zambujeira, essa linda freguesia cheia de praias, fui feliz. Bastante feliz até. Sempre que chegava ao local de descanso, era aplaudido pelos meus colegas campistas. Esperavam-me sempre de copo na mão e a noite era passada a trocar experiências.
Despedido da Zambujeira rumei a Vila Nova de Milfontes, terra com este nome devido à constituição geológica da altura. Milfontes, essa terra onde toda a gente quer ir, lá estive eu, a espalhar os meus bichos pelo parque de campismo. O guardião do espaço, senhor simpático com o seu boné azul e com a pele gasta e enrugada, disse-me que em mais de 15 anos nunca tinha visto uma roulotte assim, animada e com uns bichos estranhos como aqueles.
Vila Nova de Milfontes feito, nada mais! Levei a Albertina para outras paragens, "roendo uma laranja na falésia, olhando o mundo azul à minha frente, ouvindo um rouxinol nas redondezas, no calmo improviso do poente". Chegado a Porto Covo, mais uma vez recebido por sorrisos e questões. "O que é isso do Spore?"; "É um clube de futebol?"
E lá ia eu elucidando quem de direito, alimentado a feijoadas, salsichas e arroz, um sacrifício de que nunca me arrependi.
Já na recta final da minha viagem manti-me no concelho de Sines mas mudei de freguesia. Por acaso a minha Albertina ainda "nasceu" quando Sines era só uma freguesia.
Em Sines, ainda me senti maior. A par da minha missão de dar a descobrir novas experiências, lembrava-me sempre de Vasco da Gama, que aí nasceu.
Foi assim a minha aventura pelo Alentejo Litoral, quase a dar novos mundos ao mundo, 1000km depois, sempre com os meus bichos como companhia. Foram umas boas férias que não souberam a pouco, mas que me fizeram merecer mais.
Para já ficam estes três. É certo que muito mudou nestes últimos anos: a vida mudou, a escrita mudou, a cabeça mudou. Espero que tudo tenha mudado para melhor, a experiência evoluiu, isso é certo. É bom ler estas coisas, os dois primeiros textos são textos que ficaram com frases a meio, provavelmente num de vários acessos de raiva que tenho quando já nada desenvolve e atiro o caderno para longe. Nessas alturas penso sempre que depois vou voltar e contar o final. Raramente acontece. Como estas tenho mais experiências, mais histórias, mais peripécias para contar.
Tão longe que estão mas tão actuais que continuam.
Era dia dos namorados e ele queria fazer-lhe uma surpresa. Mas magoado como estava, a surpresa tinha que ser genial: com o toque de loucura, o toque de egoísmo e o toque de vingança (como ela merecia).
Ficou à espera à porta do edifício onde ela trabalha, levantou-se cedo, antes do horário dele e pôs-se à espera. Tinha na cabeça uma ideia brilhante, para ele, claro. Esperou duas horas até ver que os seus colegas saíam para almoço. Viu-a e tremeu. Não se deixou afectar, o ímpeto de a abordar era enorme mas lembrava-se do que lhe tinham aconselhado: "tu espera, não te precipites, se queres fazer as coisas bem, tens que as fazer!".
Assim que o viu a voltar, o tal homem que ela orgulhosamente falava, o tal novo suporte, o tal novo.. tal novo quê? A raiva que ele lhe tinha era tão grande e o profundo desconhecimento de quem ele era era tão enorme que nem adjectivos tinha para o descrever. Ainda hesitou, pensando que se calhar ele não o merecia, ele não tinha nada que ver com os seus problemas, ele não tinha a importância que lhe dava, mas isso, naquele momento, cego de ciúme, não interessava. Aproximou-se e, com um ar tímido e inocente perguntou-lhe: "trabalhas aqui?", como se não soubesse perfeitamente quem ele era, mordendo o lábio de ansiedade. "Sim, trabalho", respondeu. Foi o mote para o plano que engendrara. Entregou-lhe o embrulho que com muito cuidado havia preparado, cheio de secretismo óbvio: característica própria.
- Entrega isto àquela jornalista engraçada, disse.
Ele, desconfiado, lá a acedeu ao pedido e levou-o (ao embrulho) para dentro.
O seu plano estava concluído, pensou. Aquele embrulho há-de chegar-lhe, agora só resta saber se ela o recebe e, principalmente, o 'recebe'.
Receber e 'Receber' são coisas diferentes na sua cabeça. Todas as dúvidas o encontravam: será que vai chegar? Será que vai gostar? Gostar vai certamente, mas será que a mensagem vai ser perceptível? Saberá quem foi o remetente? Isso só será respondido depois, muito tempo depois, sempre tempo demais para ele.
Terá que viver com isso.
- Só tu.. - pensava enquanto sorria para o telemóvel. Sempre cheio de si e da sua razão, deixou-se sorrir por ela. Depois de tudo. Caía-lhe uma lágrima entretanto, misturava-se entre a raiva e o amor. Aquele amor dos olhos dela, que só ele via e que ela percebia.
"Não consigo sair de ti"
Agora queria estar contigo. Não precisava de ser contigo, no sentido em que estava ao pé de ti.. Queria estar só contigo, como estávamos muitas vezes, porque o tempo não deixava, porque qualquer coisa não permitia.. Sempre foi assim connosco, houve demasiadas forças contra, demasiadas ondas picadas, demasiados demasiados que serviam sempre de desculpa.
Mas agora queria estar contigo, se me deixasses, se me quisesses. Se calhar também não era preciso quereres-me, nunca quiseste: acredito nisso! Agora é mais fácil não te ter (julgo eu), pelo menos distraio-me quando quero estar contigo.
Mas agora queria mesmo estar contigo, partilhar contigo, sermos tu e eu como só éramos de vez em quando, mas que contava como tudo, mesmo pelas vezes em que não éramos: quase sempre. Agora estou com um cigarro, que te substituiu sempre quando não estavas, oferecendo-me o prazer efémero. Sabes que fumar sempre me lembrou de ti? Sabia que aquele momento ia sempre acabar, connosco a bonança nunca era o fim da tempestade, mas o início dela. E eras um vício, como és agora, senão não "estava" aqui. Esse vício não queria ter deixado, não assim da maneira repentina como nos recomendam a deixar os vícios (nunca resulta).
Já sei que não vou estar contigo.
Não faz mal.
Ele já estava na festa com os amigos. Nervoso, impaciente, na incerteza sobre a veracidade da informação que lhe deram, nem reparou que ela chegou. Ela chegou com as amigas, naquele alvoroço típico de miúda mimada que gosta de dar nas vistas e encher a sala. Era disso que gostava quando a via. O desafio que ela provocava.
Não reparou e isso correu-lhe bem, marcou uns pontos.
Quando a timidez, já embriagada, adormeceu, foi-se meter com ela, provocá-la, jogar um bocado. Foi também causar burburinho, como ela também secretamente queria. Pareciam duas crianças com um brinquedo novo, um e o outro. E brincaram, brincaram demasiado com isso e nem deram conta, sabes aquela sensação platónica que tens quando conheces uma mulher pela primeira vez? Foi isso que lhes deu, e a ele não podia dar! Ele tinha namorada de anos.. Agora imagina as repercussões.
Mas a noite estava virada a sul e aquela festa transpirava significado.. e muito álcool, mas não vou apontar dedos.
Foi numa das saídas em debandada daquele sítio que ficaram para trás, a rir-se um do outro, como amigos 'porreiros' que se tornaram, e saíram por último. Daquela sala saía-se para umas escadas, mas tinha uma pequeno hall em que a luz estava desligada. Já sem barulho dos que se tinham ido embora, ainda meio a brincar ele pegou-lhe no braço e abraçou-a a olhá-la nos olhos. Ficou de dia para eles, tal era a tensão acumulada, viam-se na perfeição, um por dentro do outro e só pensavam no errado que aquilo era.
Temos que ser justos! Às vezes, nos momentos certos, as coisas têm que acontecer! Quando o momento está perfeito, quando parece que saímos de um filme, quando tudo à nossa volta se cala e só há um desfecho possível para tudo fazer sentido e para o regresso à realidade ser tolerável, não podemos hesitar.
E não hesitaram, olharam-se um longo tempo nos olhos, a jeito de sincronização, criaram o momento e beijaram-se. Tudo à volta começou à roda e o beijo tornou-se a única coisa.
Palmas dentro deles e a porta abre-se: afinal não saíram todos. Afastam-se e descem as escadas: nada aconteceu. Nada podia ter acontecido.. Na cabeça dele, que é a única que conheço, já se inventavam milhares de justificações, todas a chocar umas com as outras: está escuro, estou bêbado (ele também gosta de apontar dedos), é de noite; mas nada fazia sentido e ao mesmo tempo fazia tudo.
A partir daqui já não sei mais, não me contou mais. Mas olha que fiquei assustado, nunca o vi assim, tão apaixonado a contar uma história.
Poetas de telemóvel gritava ele enquanto todos o ignoravam. Tolos, não sabiam o que significava isso tudo.
- Eu escrevo como quero e como eu quero é assim. Tímido e envergonhado, quase sem coragem.. Mas isto sou eu; hoje em dia tem que ser assim, está um mundo perigoso lá fora, sabias? Nunca sabemos o maluco que existe no outro!!
Foi isto que ele disse, tudo enquanto se declarava de amor à que menos merecia e que menos valor dava. Mas isso é assim com todos. Tolos, somos todos..
Um dia, quando eles já tiverem a distância suficiente para achar piada a tudo o que aconteceu, ele vai confessar-lhe em brincadeira: "Lembras-te dos textos que eu escrevia? A maior parte foram sobre ti.". E aí arrepende-se imediatamente, desculpando-se com a bebida.
Ela.. ela, como sempre fazia, orgulhava-se de não reagir, de ser melhor que ele (pensava ela, o que é que é melhor do que sentirmo-nos apaixonados a sério?). Depois é que se arrependia, sempre tarde de mais.
Daquela vez não, daquela vez respondeu-lhe com outra pergunta, fazendo-o gaguejar e pedir para repetir.
- Sim, do que é que tens mais saudades? É uma curiosidade que tenho há algum tempo. Não respondas se não quiseres, eu percebo.
- Queres mesmo saber? Tenho saudades de puxares o cobertor quando o vento lá fora soprava mais forte. Quando estavas com frio e refilavas por não te abraçar. Do teu aquecedor, esse é um barulho que nunca mais vou esquecer. É disso que me lembro.. principalmente agora, no Inverno as tuas memórias são mais quentes.
- Fuck it! - costumava dizer sempre cheio de confiança e 'boa onda'. Até ao dia em que o disse a sério: - Fuck it! - e aquilo deixou de lhe soar tão bem.
Categoria: Diversos
..e foi assim que chegou a casa, imerso naquela recordação.. é assim nestes momentos que nós nos lembramos disto, no carro, a chegar a casa, a manter aquele consumo do qual nos orgulhamos, a ouvir a banda sonora da recordação, a pensarmos para nós o quão mal aquilo ia parecer se estivéssemos acompanhados, e a chover. Pensamos em tudo, nas coisas boas, nas coisas más: nas coisas boas principalmente.
- Vou enviar-lhe uma mensagem. - E tudo parece perigoso, mesmo àquela velocidade, mas o àlcool já tomou conta de nós e afinal vamos fazer isso em casa.
Entretanto as coisas boas vão embora, e só ficou aquilo, aquele momento quando chegou a casa. Nunca mais se vai lembrar, nunca mais se vai lembrar daquele momento em que tudo fazia sentido, em que tinha encontrado o significado da vida; vai ser sempre aquele momento que se esqueceu. Mas quando for velhinho e o tratarem por maluco, vai-se ouvir em tom jocoso:
- Olha o maluco, está outra vez a dizer que sabe tudo!!
